Pessoas que malham demais podem sofrer de vigorexia.
Doença caracterizada pela fixação por exercícios cresce entre os jovens
Transtorno leva o indivíduo a praticar atividades físicas de uma maneira fanática
Hoje se comemora o Dia Mundial da Atividade Física. É fato que a qualidade de vida está atrelada à prática de exercícios, mas cuidado: o excesso de atividades corporais pode causar uma doença chamada de vigorexia ou overtraining. A patologia caracterizada pela fixação por exercícios, um transtorno que leva o indivíduo a realizar esportes de uma maneira fanática, independente das conseqüências que este exagero possa causar a seu corpo, está se tornando cada vez mais comum, principalmente entre os jovens.
Viciados em atividade física são conhecidos como ginastocólatras. Fabrício Gonçalves, 32 anos, coordenador de uma academia em Salvador, é uma dessas pessoas. Ele conta, orgulhoso, que treina musculação de segunda a sábado. "O treinamento é sagrado, abro mão de outras coisas, mas deixar de vir a academia é algo impossível", declarou o ginastocólatra. Para ele, a malhação é tão essencial quanto comer, dormir, tomar banho ou escovar os dentes. O viciado por exercícios faz questão de reforçar que a hora da atividade é tão importante que não gosta nem de conversar.
"Brigo muito com as pessoas daqui quando me chamam para qualquer coisa na hora em que estou fazendo meus exercícios. Para mim é uma espécie de ritual", revelou. Como toda carreira profissional, a educação física também é um sonho. Roberto Ferreira, 35 anos, tinha feito vestibular. Em 1995 fez o exame para Educação Física e hoje é um profissional altamente reconhecido, é orientador em cinco academias da cidade. Ele não nega o vício pelas atividades físicas: "Me adequo a essa patologia, sou o perfil psicótico. Não vivo sem atividade física", disse o professor, explicando que o vicio pode estar ligado a endorfina, substância relacionada ao prazer, que o organismo libera durante a atividade física.
O professor de medicina do esporte na Universidade de São Paulo (USP), João Gilberto Carazzato, tem uma regra universal para a prática de exercícios: é proibido para saúde do corpo malhar todos os dias. Segundo ele, três vezes seriam o mínimo, cinco o ideal e seis o máximo aceitável. Para o especialista, quem malha todo dia condiciona o organismo a perceber o exercício como uma atividade obrigatória, tal como o sono e a alimentação. "E não é essa a conotação que deve ser dada à atividade física", reforça Carazzato.
Para outros especialistas como o professor da Universidade Católica do Salvador (Ucsal) e vice-presidente do Conselho de Educação Física da Bahia, Lauro Gurgel, o número de dias não é o problema e sim a quantidade de esforço e tempo dedicado à malhação. "Exercícios podem ser feitos diariamente durante 30 a 50 minutos. É importante a boa orientação de um profissional. O erro está nas pessoas que malham três horas seguidas no mesmo dia, sem o acompanhamento de um professor de Educação Física", assinala.
Comparação com alcoólatras
O termo "ginastocólatra" foi criado pelo psicólogo esportivo João Ricardo Cozaci, presidente da Consultoria de Estudo e Pesquisa da Psicologia do Esporte. "O termo sugere uma comparação com alcoólatras, porque, na opinião dele, existe um ponto em comum entre esses grupos: a carência emocional, que pode estar relacionada à ansiedade e à depressão. "Outro componente ligado ao vício em exercícios é o narcisismo, um fascínio anormal pela própria imagem. "O vício em exercícios não é fenômeno raro em academias", afirma a psicóloga baiana Ana Teresa Freitas.
Os ginastocólatras têm até comunidade no Orkut: "Os psicóticos por musculação". Muitas outras pessoas também se encaixam nesse perfil. Juliana Ferreira, 26 anos, malha duas horas e meia por dia. "Venho todos os dias e, quando preciso faltar, fico mal-humorada, não quero falar com ninguém", revelou a jovem, que malha diariamente desde os 14 anos. O vício já lhe causou problemas físicos: teve uma espécie de luxação na panturrilha. "Acho que foi a quantidade de exercício", confessa.
Ela não nega que o excesso já lhe causou problemas. "Fiquei quase um mês sem conseguir pegar em um aparelho, tinha muitas dores na panturrilha", lembrou. O exercício físico é uma das prescrições médicas mais freqüentes, mas exageros podem ser perigosos, causando danos no aparelho locomotor (tendinite, bursite, fratura por estresse) e no metabolismo (insônia, agitação, taquicardia).
DOENÇAS
Algumas das doenças provocados pela vigorexia
Tendinite
Bursite
Fratura por estresse
Doenças no metabolismo como insônia, agitação, taquicardia
SINTOMAS
Observe os sintomas
Fadiga persistente durante os exercícios e nos períodos de repouso
Incapacidade temporária de executar corretamente os exercícios
Queda no desempenho das atividades cotidianas
Maior suscetibilidade a infecções (relacionada à baixa da imunidade)
Lesões e dores nos músculos, nas articulações e nos ossos
Depressão
Irritabilidade
Taquicardia, mesmo nos períodos de repouso
Alterações no sono (insônia, principalmente)
Perda de peso
Distúrbios gastrointestinais
Prejuízos socioemocionais (dificuldade de manter, com assiduidade, relações fora da academia.
