
Meus olhos viram, meu coração se compadeceu e minha razão se indignou. Já passavam de vinte horas, que um jovem de sofríveis trinta e poucos anos, estava dentro do canal de esgoto da feira, exposto á curiosidade de milhares de pessoas que por lá passaram e pararam desde o meio dia de domingo; agora visivelmente abatido, talvez machucado, parece madornar depois de uma tarde e uma noite inteira de inquietação e sono, o cansaço parece ter lhe dominado e mesmo assim, ninguém se habilita a tirá-lo daquela humilhante e ultrajante situação. Franklin é o seu nome, que depois de trabalhar muito como motorista e locutor de carros de som, há alguns anos vinha tendo seguidas crises psicóticas, segundo dizem por conta do uso excessivo de entorpecentes, não foram raras às vezes que ficou violento, bateu, apanhou e um dia foi preso, na delegacia conseguiu tirar a arma de um policial e por pouco não lhe tirava a vida; foi levado a Salvador onde ficou detido por mais de dois anos; faz pouco tempo que voltou para cá, vagou em vão por aí a procura de serviço e surtou novamente. Ontem, segundo dizem, andou atormentando alguns feirantes e quando perseguido se atirou a uma altura de quase três metros, no esgotão fétido e imundo que passa ao lado da feira de todos nós. Lá estiveram algumas viaturas da polícia, muitos policiais, viatura do SAMU, muitos curiosos, mas pasmem senhores: ninguém quis descer no canal, para sujar as mãos e os pés na lama podre que essa cidade produz; não é a primeira vez que isso acontece, a poucos meses, o filho de uma professora caiu ali naquele mesmo lugar com uma bicicleta, quebrou os braços e os homens do SAMU, sem querer sujar seus impecáveis uniformes também se recusaram a descer para tirar o garoto, foi preciso que a multidão presente manifestasse sua revolta e que um professor ajudasse no resgate do garoto. O tratamento dado hoje a Franklin, abandonando á própria sorte, não é privilegio apenas dos doentes mentais, que perambulam por essa cidade sem assistência, expostos a todo tipo de insensibilidade e a insensatez do poder público. Clamar por quem? Muitos ali se perguntavam: será que a polícia não podia imobilizar esse rapaz, aplicar um sedativo e resgatá-lo logo dalí? Onde anda o grupamento do Corpo de bombeiros treinado pelo batalhão, não seria para atender situações como esta? - o tempo passava a situação se agravava e as perguntas continuam sendo feitas; afinal, aqui como em qualquer outro lugar do mundo, a realidade é feita de perguntas e não de respostas, a vida é feita de problemas e de poucas soluções. A cena me fez lembrar uma peça teatral de Dias Gomes, por nome ?O Pagador de Promessas? que contava a história de um homem impedido de entrar na Igreja com sua cruz; fato que atraiu uma multidão para a frente da igreja e que aos poucos foram deixando o homem sozinho com o seu problema. Enquanto muitos se perguntavam: será que vão deixar esse rapaz dentro do esgoto, doente, machucado e sozinho com o seu problema? ? Quando já completava 24 horas de angustiante espera, eis que a polícia reapareceu, um policial aposentado tomou a iniciativa de ir sozinho até Frankilin e foi duramente agredido com pedradas e uma paulada. Imediatamente um outro policial subitamente encorajado pela cena atirou várias vezes contra o doente mental, e os dois gravemente feridos foram conduzidos para o hospital. Assim termina mais um episódio triste que em 24 horas produziu cenas de impotência, imobilidade e despreparada para lidar com um doente mental, o desfecho não poderia ser menos trágico; parece uma lenda urbana, mas pode acreditar foi isso que aconteceu. Estamos torcendo pela recuperação dos dois e sinceramente esperamos que o poder público, especialmente a Secretaria de Assistência Social, cumpra sua missão e encaminhe para tratamento os inúmeros doentes mentais que vagam pelas ruas da cidade.