Mulher assassinada em Guanambi havia pedido fim de medidas protetivas dois meses antes do crime.
O assassinato de Sirleide da Silva Pinto, ocorrido na zona rural de Guanambi (BA), no último fim de semana, expôs mais uma vez a dura realidade da violência doméstica e o ciclo de agressões que, mesmo denunciadas, muitas vezes terminam sem a proteção necessária para salvar vidas.
Sirleide foi morta pelo companheiro Vilobaldo Lima Caldeiras, de 51 anos, com quem mantinha um relacionamento marcado por episódios de agressão e reconciliação. Em janeiro deste ano, a vítima havia procurado o Núcleo Especial de Atendimento à Mulher (NEAM) e relatado as violências físicas que vinha sofrendo, o que levou a Justiça a conceder medidas protetivas de urgência e a solicitar a prisão preventiva do agressor.
Dois meses depois, no entanto, Sirleide decidiu retirar a queixa e pedir a revogação das medidas. No pedido encaminhado à Vara Criminal de Guanambi, ela afirmou não se sentir mais em risco e manifestou o desejo de reatar a convivência com Vilobaldo. A juíza Cecília Angélica de Azevedo Frota acolheu o pedido e encerrou o processo, extinguindo as medidas protetivas.
Apesar disso, o histórico criminal do agressor revelava um padrão de reincidência preocupante. Em abril de 2025, ele chegou a ser preso em cumprimento a dois mandados de prisão — um da Vara Criminal de Guanambi e outro da Vara do Júri e das Execuções Criminais de Mauá (SP), onde já havia sido condenado por outro feminicídio, praticado em 2015. No dia seguinte, porém, foi liberado por meio de alvarás de soltura, após o sistema do Banco Nacional de Medidas Penais e Prisões (BNMP) não apontar pendências ativas que impedissem sua soltura.
Com o assassinato de Sirleide, o caso de Vilobaldo passa a envolver três episódios de violência extrema contra mulheres: o feminicídio em São Paulo, uma tentativa de homicídio na comunidade de Barriguda, e agora o crime em Guanambi.
A morte de Sirleide reforça a discussão sobre os desafios na efetividade das medidas protetivas e na fiscalização de reincidentes em crimes de gênero. O caso também reabre o debate sobre o perdão dentro de relações abusivas — quando o medo, a dependência emocional ou a esperança de mudança se sobrepõem à proteção e resultam em novas tragédias.
Sirleide da Silva Pinto agora se torna mais um nome em uma estatística dolorosa, marcada por alertas ignorados e pela ausência de uma rede de proteção eficaz diante da violência contra a mulher.
Por Clóvis Junior – MTBE: 7281/BA
