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Medida do governo pode evitar anencefalia
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Medida do governo pode evitar anencefalia

A cada ano, estima-se que 200 mil crianças em todo o mundo nasçam com defeitos incapacitantes na coluna cervical. Muitas ficam paralíticas ou permanentemente comprometidas pela spina bífida; algumas, por uma condição conhecida como anencefalia (literalmente, ?ausência de cérebro?), sobrevivem em estado vegetativo. É um problema terrível e teimoso, tanto no primeiro mundo quanto nos países em desenvolvimento. Mas muitos especialistas acreditam que ele seria em grande parte eliminado por uma simples medida do governo: a requisição de que a farinha passasse a ser fortalecida com o suplemento alimentar chamado ácido fólico, que comprovadamente previne esses defeitos do tubo neural quando consumido por mães grávidas desde antes da concepção até o primeiro trimestre da gravidez. O debate sobre o ácido fólico é bastante familiar e os americanos não têm mais desculpa para não pensar no assunto. Desde 1998, o governo federal exige que quase toda farinha seja fortificada com o suplemento. Mas, na verdade, a requisição significava que as mulheres receberiam uma dose extra de 100 microgramas de ácido fólico por dia -? muito menos do que os níveis mostrados em estudos para prevenção de spina bífida e outros defeitos do tubo neural. Por mais de uma década, a FDA ["Food and Drug Administration", órgão norte-americano responsável pela regulamentação de alimentos e medicamentos] tem resistido aos pedidos de que a quantidade seja dobrada. Godfrey Oakley, ex-diretor de pesquisa de defeitos congênitos dos Centros de Controle e Prevenção de Doenças, declara que a situação o deixa perplexo. ?Até hoje a FDA ainda obstrui a suplementação com ácido fólico?, declarou ele. ?Isso é como fazer uma vacina contra a pólio que previna contra apenas uma das manifestações da doença, em vez de quatro?. O debate se intensifica. Nos últimos dois anos, a Associação de Medicina Americana, a March of Dimes e diversas outras associações pediátricas pediram que a agência de regulamentação de alimentos e medicamentos reconsiderasse sua decisão. O Chile é o único país que atualmente adiciona a quantidade recomendada pelo especialista Michael Katz, diretor da March of Dimes. A promessa do ácido fólico emergiu há 40 anos, quando obstetras ingleses perceberam que a spina bífida com freqüência ocorria quando as mães tinham um tipo de anemia causado por deficiência de ácido fólico. Então, em 1991, num estudo na Inglaterra com mães de portadores da doença, Nicholas Wald, o principal investigador do tema, encontrou resultados extraordinários que detiveram o teste prematuramente. Quando as mulheres tomaram o ácido fólico diariamente antes da concepção e ao longo de todo o primeiro trimestre de gravidez, a ocorrência de spina bífida caiu em 72%. ?Esse foi o dado científico mais significativo que ouvi em toda a minha carreira?, declarou Oakley. Em 1992, o Serviço de Saúde Pública norte-americano pediu que todas as mulheres menstruadas tomassem uma pílula diária de ácido fólico. (O ácido fólico só é útil se consumido antes da formação do sistema nervoso do feto). Mas, quando poucas mulheres seguiram o conselho, o CDC prevaleceu sobre a agência que controla alimentos e medicamentos para fazer audiências sobre a fortificação com ácido fólico. Isso levou a uma requisição federal ainda efetiva, apesar de a FDA nunca ter ficado muito entusiasmada com isso. David A. Kessler, comissário do órgão na época, disse recentemente que ?essa foi provavelmente a decisão mais difícil que tive que tomar durante toda a minha atuação com comissário?. ?Adicionar um ingrediente biologicamente ativo ao suprimento de comida de 300 milhões de pessoas é uma questão de enorme importância?, declarou Kessler. ?Você não pode fazer experimentos com o povo norte-americano?. Para aqueles que criticam a idéia, o primeiro problema é o fato de as doses recomendadas de ácido fólico serem grandes, diminuindo a quantidade presente em média na alimentação de uma pessoa comum. A segunda preocupação diz respeito ao fato de um excesso de ácido fólico poder mascarar sintomas de deficiência de vitamina B12 e talvez levar a danos cerebrais irreversíveis em pessoas mais velhas. Mais recentemente, alguns pesquisadores apontaram para o fato de a taxa de câncer do cólon ter subido ligeiramente no final dos anos 90, depois que a obrigatoriedade do ácido fólico foi implementada. Mas as taxas de câncer do cólon têm caído desde então, o que sugere um aumento na anomalia estatística. O ceticismo permanece. James Mills, do Instituto nacional de Saúde dos EUA e inimigo declarado da fortificação concluiu que o nível de folato da maioria das mulheres já é alto o suficiente para evitar defeitos de tubo neural que possam ser prevenidos. Ele afirma que não há modo de garantir a segurança da população com níveis mais elevados de adição do ácido fólico e pergunta: ?Como poderiam criar um estudo para determinar se o procedimento é seguro?? Ainda assim, a requisição de ácido fólico teve claros benefícios. Depois de um ano de fortificação limitada, segundo o CDC, os defeitos de tubo neural caíram em 20% e nenhuma relatório de efeitos tóxicos em massa surgiu. E há bons motivos para crer que a adição obrigatória do ácido fólico possa prevenir outros defeitos congênitos. Os níveis sanguíneos de folato entre mulheres jovens têm declinado, de acordo com um estudo do CDC, divulgado em janeiro passado, talvez porque a obesidade tem se agravado e devido à popularidade das dietas de baixo carboidrato. Os EUA têm um longo histórico na aceitação de comida fortificada por motivos de saúde pública. Já foi comprovado que o iodo no sal previne muitos casos de retardamento mental; enquanto quase um terço da população global não tem acesso ao sal iodado, os americanos o consomem desde 1924. De maneira similar, aditivos como a vitamina D no leite para prevenção de raquitismo, ferro na farinha para a prevenção de anemia e flúor na água para prevenir cáries já foram difundidos no primeiro mundo há meio século. Em última análise, qualquer intervenção por motivo de saúde pública vacinação em massa ou o banimento da gordura trans envolve uma boa dose de boa vontade, uma vez que nenhum estudo pode provar a segurança da medida sem sombra de dúvida. Um estudo mostra que dano colateral é muito pouco provável. Por esse ponto de vista, o fato de 300 milhões de americanos já terem sido expostos ao ácido fólico na farinha constituí um dos maiores teste médicos do mundo -- um teste que sugere que a adição da substância é segura. E novos benefícios surgiram: em junho, a Associação Americana do Coração relatou que o ácido fólico previne defeitos de nascença comuns no coração e a publicação médica "Lancet" reportou que mais ácido fólico pode ser utilizado para reduzir derrames em adultos em 18%. O ideal seria que as autoridades abordassem cada preocupação antes de fazer qualquer intervenção. Mas tal atitude pode levar a uma paralisia na saúde pública. Oakley lamenta a falta de incentivo para a prevenção de defeitos de nascença. Por exemplo, esforços para incluir informações para esclarecer mulheres sobre o ácido fólico em absorventes íntimos e contraceptivos orais não foram adotados.
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