Deputados se unem na defesa dos salários extras
Parlamentares foram advertidos pelo governador do desgaste que causaria a suspensão do recesso
Dos 63 deputados, 55 comparecem ao primeiro dia de trabalho extraordinário da AL
Em vez de dar explicações sobre a imoralidade da autoconvocação extraordinária da Assembléia Legislativa, os deputados estaduais, que irão faturar R$28.620 - o correspondente ao salário do mês e mais dois extras - para trabalhar no recesso de janeiro, preferiram, numa defesa do corporativismo, atacar o Correio da Bahia, ontem, no primeiro dia dos trabalhos. Parlamentares inexpressivos da bancada majoritária, que integram o baixo clero, disseram que o jornal foi sensacionalista nas reportagens em defesa do erário e que revelam a indignação da população com os representantes do Legislativo baiano. Unidos contra os cofres públicos, o objetivo deles foi o de proteger os ganhos financeiros de cada um, sem demonstrar a menor preocupação em explicar a farra com o dinheiro público.
Antes da manobra, os deputados foram alertados pelo próprio governador Paulo Souto sobre a inconveniência da autoconvocação e da repercussão negativa que ela teria perante a opinião pública, bem como o desgaste que sofreria a Assembléia. Ele próprio se recusou a fazer a convocação por entender que não havia matérias suficientemente relevantes e urgentes para serem apreciadas no período do recesso.
Até a oposição, que se disse contrária à autoconvocação, envergonhada com a repercussão negativa, optou por atacar o jornal em vez de explicar à opinião pública a farra com o dinheiro público - os trabalhos extraordinários irão provocar um prejuízo de R$1,1 milhão nos cofres do estado. Para atacar o Correio, maioria e minoria se uniram de forma rara, em um discurso afinado e que revela o corporativismo dos deputados quando, o que está em jogo, é o bolso de cada um. Nem os dois deputados - Álvaro Gomes (PCdoB) e Zé Neto (PT) - que prometem doar os vencimentos extras e ficar apenas com o salário do mês, equivalente a R$9,5 mil brutos, se manifestaram contra a autoconvocação, atendendo pedido dos colegas.
"Assinei o requerimento com convicção de que os projetos pautados são urgentes e importantes. Sou a favor de uma Assembléia livre e autônoma", disse o deputado Elmar Nascimento (PL), que, em apenas dois anos no Legislativo baiano, já trocou de partido três vezes, sendo chamado pela oposição de "adesista". Elmar também criticou o jornal, pois preferia que os ganhos extras que os parlamentares acumularão com a autoconvocação não chegassem ao conhecimento da população. "Se a oposição quiser criticar (os trabalhos extraordinários), terá que devolver o dinheiro, como fazia o deputado Paulo Jackson".
O deputado Pedro Egídio (Prona), que nunca utiliza a tribuna porque não costuma estar presente em plenário, disse que ficou constrangido com as reportagens publicadas, mas certamente satisfeito com o dinheiro que vai receber. "A convocação é necessária porque não tivemos tempo de votar todos os projetos", discursou o parlamentar que, de fato, passou o ano de 2004 muito ocupado tentando explicar as denúncias de corrupção que o atingiram quando presidiu a Câmara Municipal de Itabuna. E mais: Egídio, que até hoje não sabe se é governo ou oposição, ressaltou que assinaria novamente o requerimento de autoconvocação.
Para o deputado Ângelo Coronel (PL), o jornal achincalhou com os parlamentares perante a opinião pública. "Tem muito deputado que está trabalhando contra o Legislativo e sem ética, atirando no próprio pé, querendo ficar eternamente no poder", disse o liberal. Dos 63 parlamentares, 55 compareceram à primeira sessão da autoconvocação extraordinária. O Executivo retirou dois projetos da pauta: o que reajusta as custas do Judiciário e o que propõe o aumento de taxas contratadas pelo exercício do poder de polícia e pela utilização dos serviços prestados ou postos à disposição da comunidade. Com isso, o Executivo deixa claro que não havia urgência, nem relevância nas matérias incluídas pelos deputados na pauta da autoconvocação.
