Brasileiro não tem dinheiro para o feijão, mas não dispensa o celular.
Mercado altamente competitivo e uma mania que atravessa todas as classes sociais. País já tem 66 milhões de celulares, trazendo benefícios incalculáveis, mas também se tornando um fetiche irresistível
Mais 1 milhão de brasileiros resolveram adotar o celular em janeiro, indicando crescimento forte no mês que se segue ao Natal. O Brasil encerrou janeiro com 66.601.929 usuários de telefonia móvel, adesão de mais 996.352 consumidores no mês, o que representou crescimento de 1,5% sobre dezembro. Na mesma comparação um ano antes, o país havia agregado praticamente a metade desse número e taxa de expansão tinha sido de 1,25%.
Esses dados indicam aquecimento do mercado, apesar das projeções mais conservadoras da indústria de telecomunicações e das operadoras de telefonia móvel, que prevêem crescimento de 20% a 30% este ano, diante de 41,5% no ano passado. Os celulares pré-pagos continuam a ser a grande maioria dos celulares em funcionamento, mas tiveram seu primeiro decréscimo em termos de participação - caíram de 80,47% da base para 80,43%. Isso confirma o que as operadoras vêm apresentando como uma estratégia de reduzir a barreira de entrada para o consumidor adotar o pós-pago, que teria receita média maior por usuário.
Outra novidade do mês foi o sistema GSM ultrapassar o TDMA, tecnologia que está sendo descontinuada pelos fabricantes. A tecnologia norte-americana, adotada antes mesmo da privatização do setor, foi dominante nos últimos anos, mas com a opção de quase todas as operadoras do país de migrar para a tecnologia européia GSM, o quadro mudou. A exceção é a Vivo, maior grupo celular do Brasil, que adota o CDMA, também ultrapassado pelo GSM no ano passado.
?Não saio de casa sem o celular, se esqueço, faço de tudo para buscar de volta e durmo com o aparelho sempre ao meu lado na expectativa de que alguém ligue?. O relato de M.R.S. retrata uma pessoa que se tornou dependente do aparelho móvel. Objeto de desejo de um número cada vez maior de pessoas, o celular causa dependência social, alerta o antropólogo Roberto Albergaria. Segundo ele, a utilização do aparelho móvel expandiu a rede de contatos, mas aprisionou o homem. ?O celular é a nova coleira eletrônica?, afirmou.
Que o celular trouxe facilidades para a comunicação entre as pessoas, disso ninguém duvida, mas estudiosos já analisam os efeitos negativos do uso do aparelho. Para Albergaria, o celular é uma máquina de controle. ?Os empregados e os patrões ficam dependentes, os parceiros se controlam e os pais fiscalizam os filhos. É um inferno?, justifica. Nas faculdades e escolas é comum os professores reclamarem os estudantes por deixarem o celular ligado durante a aula. ?Ninguém presta atenção a nada. Os jovens não entendem que atender o celular na aula cria dispersão?, analisa o antropólogo. Conforme Albergaria, há pontos críticos para a sociedade com o uso exagerado do aparelho ? a busca de status, a dispersão e o controle. ?Quando meu celular descarrega na rua, procuro o carregador de outra pessoa.
Durmo com ele ligado e por perto na esperança de receber mensagens e ligações. Não consigo viver sem?, afirma a assessora de comunicação Fernanda Dourado, 25 anos. As pesquisas geram controvérsias em todo o mundo. Segundo o MMF ? Mobile Manufactures Forum (Fórum de Fabricantes de Aparelhos Móveis), instituição que financia pesquisa sobre os riscos do celular para a saúde, há 350 estudos que estão sendo feitos em vários países que ainda não comprovam nada.
O mercado da telefonia celular cada vez mais cresce no país. Hoje, quatro operadoras disparam nas vendas. Recentemente a Vivo, operadora mais antiga, divulgou que tem 25 milhões de usuários em todo o país. A empresa de telefonia Oi atingiu 6 milhões de clientes em 16 estados nas regiões Norte, Nordeste e Sudeste. A Tim apresentou em julho os dados de 10,8 milhões de usuários e a Claro, a mais nova no mercado, tem mais de 12 milhões de clientes no Brasil e 300 mil na Bahia e em Sergipe. A Claro existe há menos de um ano em 20 estados mais o Distrito Federal. Milhares de pessoas no mundo compram hoje o primeiro celular ou trocam o velho por um modelo com maior tecnologia. De acordo com o antropólogo Roberto Albergaria, o uso do telefone móvel trouxe maior mobilidade e permitiu que a classe econômica mais baixa da sociedade se comunicasse. ?Antes, apenas os ricos se comunicavam, hoje o celular provocou uma revolução na vida das pessoas mais pobres?, assinala. A diarista Sônia Silva conta que não tem telefone fixo e que é através do celular que consegue suas diárias. ?Dependo do celular para marcar os dias para trabalhar nas casas das pessoas?, relata.
O antropólogo Roberto Albergaria destaca que o celular distingue as pessoas socialmente. ?Marca a função social do sujeito. A primeira coisa que as ?piriguetes? olham depois do carro do homem é para o celular. Se ele for moderno, ótimo, mas se for aquele antigo ?tijolão?, elas não querem saber do cidadão.
